Pernas atrofiadas
A visão daquela perna atrofiada o arrebatou de uma forma tão intensa, que, ao tentar fugir dela, da sua imagem, o oposto ocorreu.
Matheus Augustino se lembra do dia exato em que se apaixonou pela primeira perna atrofiada. Era vinte e dois de outubro, um domingo, a brisa começava a gelar no começo da noite, quando ele virou a página e se encontrou com a perna direita de Monsenhor Mefisto, o Adivinho, personagem secundário de As Flores de Buenos Aires, terceiro romance de Felícia Márquez, e o primeiro dela que Matheus Augustino leu, aos dezoito anos de idade e a contragosto de seus pais, que achavam a obra densa demais, adulta demais, para um jovem como ele. O que o atraiu foi a forma como Felícia Márquez descreveu, tão profundamente, tão completamente, aquela perna atrofiada, dedicando-lhe um parágrafo inteiro antes mesmo de apresentar o próprio Monsenhor Mefisto, o Adivinho. Um parágrafo curto, sim, de três frases, mas um parágrafo inteiro. A perna, descrita em sua completude, encontrou terreno fértil na mente de Matheus Augustino e ali se fixou, se tornando não um parágrafo de três frases, mas um objeto real, uma perna real, saltando da página: uma perna atrofiada existindo sem um corpo, presa a um personagem que não conseguia se libertar da página. Mas sua perna, sim. Anos depois, Matheus Augustino só se lembraria da história contada no romance porque nela havia a perna atrofiada de Monsenhor Mefisto, o Adivinho, e as únicas cenas que ficariam marcadas em sua memória seriam aquelas onde havia essa perna e, por consequência, Monsenhor Mefisto, o Adivinho. Sua fascinação por esse acontecimento literário foi tamanha que Matheus Augustino, ainda aos dezoito anos, decidiu dedicar sua vida a ler todos os livros de Felícia Márquez, tarefa relativamente simples, dado que ela morrera há menos de quatro anos, deixando apenas cinco romances e uma coletânea de ensaios curtos. Foi necessário dedicar apenas um ano de sua existência para devorar a obra de Felícia Márquez, buscando aquela prosa precisa, mágica, que fazia existir, feito o toque de um deus, de uma deusa, aquela perna. Sua busca, porém, foi infrutífera. Não achou ruins os livros de Felícia Márquez, pelo contrário. O Museu das Águas Imundas é, até hoje, um dos seus favoritos, mas nem nele, nem em nenhum dos outros, ela conseguiu descrever novamente algo tão perfeito, tão real, tão verdadeiro quanto aquela perna atrofiada. E não foi por falta de tentativas, Matheus Augustino percebeu. Florestas, jardins, mansões, casebres, damas e barões, seus bigodes e suas joias, os músculos dos braços dos estivadores, montanhas à distância e chumaços de cabelo sobre o azulejo ensanguentado, todos eles receberam sua devida atenção nos romances e nos ensaios de Felícia Márquez, a maioria deles chegando perto de furar a página, mas sempre falhando ou se cansando no último momento, ficando ali, entre as palavras e a realidade, quase existindo. Quase. Em uma entrevista, Matheus Augustino descobriu, Felícia Márquez comentou o feito da perna atrofiada, que não passou despercebido pelo mundo literário, e revelou que escrevera a perna atrofiada de Monsenhor Mefisto, o Adivinho, em homenagem à perna atrofiada de Olena Sakarovska, a prostituta polonesa leitora de mãos que aparece no conto Lentidão, de Yigor Volmer, um de seus autores favoritos. A trama do conto, Felícia Márquez disse, já tinha se esvaído de sua memória há muitos anos, mas a perna atrofiada de Olena Sakarovska permaneceu, viva, pulsante, caminhando de lá para cá em sua mente, presa ao corpo da prostituta polaca que, agora, era o corpo de qualquer outra prostituta, polaca ou não. Somente a perna permanecia. Era um mero detalhe da história (a prostituta aparece brevemente no interlúdio do conflito conjugal ou monetário, ela não se recorda, do protagonista), mas é descrita de forma tão viva que, para Felícia Márquez, o conto é sobre a perna atrofiada de Olena Sakarovska. E, disse ela, Yigor Volmer chega a comentar, em seu ensaio Relatório quase onírico sobre a escrita de um romance, como decidiu colocar uma prostituta com uma perna atrofiada em seu conto mais famoso e mais celebrado (apesar de não ser nem de longe o favorito dele, do autor). A prostituta polonesa leitora de mãos já existia pronta em sua mente, mas, ao colocá-la na página, se dissolvia junto dos sons e cheiros do prostíbulo parisiense em que aparecia, deixando um espaço vazio na história onde deveria haver uma personagem. E, então, a ideia lhe veio num sonho, onde uma mulher com uma perna invisível lhe pedia para recitar os mil cento e noventa e dois versos de Sob os Céus de Calcutá, do poeta Fahid ibn-Farhan, poema esse que Yigor Volmer, nem em sonho, nem em vigília, se lembrava de ter jamais lido, apesar de reconhecer o nome do poeta como um detalhe de um outro sonho distante. Ao acordar, Yigor Volmer foi até a sua estante e buscou o nome Fahid ibn-Farhan em suas muitas antologias de poesia. Encontrou o autor persa com uma diminuta participação na antologia Versos do Oriente - Vol.III, com um poema que não era Sob os Céus de Calcutá. Foi só anos depois, ao ficar amigo de Ibrahim Khalid, o livreiro argelino, dono da livraria Verses au Vent, que também seria homenageado em outro conto de Yigor Volmer, é que teve acesso à obra completa de Fahid ibn-Farhan, traduzida diretamente por Ibrahim Khalid, que os recitava por uma quantia modesta. Ali, no balcão da livraria Verses au Vent, Yigor Volmer escutou, na voz de Ibrahim Khaldi, os mil cento e noventa e dois versos de Fahid ibn-Farhan que compunham Sob os Céus de Calcutá, poema épico e autobiográfico descrevendo as longas viagens do poeta durante a infância, acompanhando, por oito países e três protetorados, a caravana de seu pai e de seus tios marcadores. Em certo momento, ao redor dos versos setecentos e alguns quebrados, Fahid ibn-Farhan cruza com um mendigo cego e quase nu em Magdalena, capital do antigo império Auroviano, esbravejando contra as sombras que enxerga passando, detrás de seus olhos esbranquiçados, para lá e para cá. Demônios, ele as chama, espíritos malignos tentando levá-lo em direção à escuridão da morte, sem perceber que, na verdade, não era cego, só não distinguia mais as pessoas das assombrações. É somente ao observá-lo, submerso em sua insanidade, que Fahid ibn-Farhan percebe que o mendigo possuía uma perna atrofiada. A visão daquela perna atrofiada o arrebatou de uma forma tão intensa, que, ao tentar fugir dela, da sua imagem, o oposto ocorreu, e a perna se prendeu à sua mente, perseguindo-o através da infância e da vida adulta, sempre no canto de suas lembranças, de seus pensamentos, de seus amores e de seus muitos ódios. Somente ao colocá-la no poema, muitos anos depois, descrevendo-a da forma mais real possível, com todos os detalhes necessários para fazê-la brotar na página e na mente de seus leitores, Fahid ibn-Farhan esperava se livrar dela finalmente, passando-a adiante. Felícia Márquez ri dessa história em sua entrevista, dizendo ser uma maldição da qual ela mesma foi acometida, e só se desfez ao escrever Monsenhor Mefisto, o Adivinho. Ainda rindo, pede desculpas aos seus leitores por torná-los receptores dessa estranha perna atrofiada que persegue seus leitores, e diz que já viu pernas atrofiadas pipocando em histórias de muitos outros autores e autoras, para além da sua e da de Yigor Volmer, inclusive, até em alguns de seus contemporâneos e na nova geração que vem ganhando espaço com suas prosas experimentais, sinal de que Flores de Buenos Aires continua sendo lido, tantos anos após sua publicação. Em sua entrevista, Felícia Márquez cita mais nomes atrelados a essa estranha tradição das pernas atrofiadas. São os quatro nomes que se lembra no momento, mas garante que existem muitos outros que foram tocados pela perna atrofiada do mendigo cego e quase nu de Magdalena, que agora passeia pela literatura, encontrando outros personagens aos quais se afixa feito um parasita. Matheus Augustino, então com vinte anos, anotou todos os nomes citados por Felícia Márquez e foi às livrarias, sebos, bibliotecas públicas e estantes de amigos em busca dessas obras. Após esgotar os títulos citados por Felícia Márquez, Matheus Augustino passou a fazer uma busca ativa pelas pernas atrofiadas em toda a literatura. Comprou-as quando pôde. Encomendou-as quando em falta no estoque. Roubou-as quando teve de. Assim foi que Matheus Augustino deu início a sua biblioteca dedicada às pernas atrofiadas hiperrealistas, tarefa que o consumiu por inteiro, transformando seus amores, seu trabalho e sua eventual família (a esposa foi embora grávida, deixando para trás uma carta com seu novo endereço e número de telefone, mas Matheus Augustino nunca o leu) em um mero apêndice inútil de sua existência, de sua obsessão, de sua razão de existir. Em momento algum sentiu a vontade de passar a maldição adiante, bastava, a ele, ler. Casou mais de uma vez, teve filhos aqui e ali, seguiu lendo. Morreu aos cinquenta e oito anos de idade, no começo da manhã de um outro domingo, por complicações cardíacas, sozinho, na casa que não abrigava nada além de livros e, agora, do corpo de Matheus Augustino. Seu objetivo maior, seu último projeto iniciado em vida, de catalogar todas as pernas atrofiadas e traçar suas linhas de influência autor a autor, jamais foi concluído. Helena Augustino, filha do seu primeiro casamento, nunca soube o tamanho da obsessão do pai por livros até adentrar em sua biblioteca. A mãe fazia questão de xingar o ex-marido sempre que seu nome voltava à mente, incluindo, também, um ou dois impropérios aos livros que devoraram sua mente, e, diz ela, foram responsáveis pela pena atrofiada com a qual a filha nasceu e que a acompanhará por toda sua vida. Por conta disso, Helena Augustino contraiu um ódio pela literatura que a acompanharia por metade de sua vida, até o dia em que herdará, a contragosto, a biblioteca fruto da dedicação de uma vida inteira, a de Matheus Augustino. Certa noite, após seu divórcio com um marido que não merece ser nomeado aqui, Helena Augustino se encontrará bêbada e sozinha, rodeada por todas aquelas estantes, atoladas sob os livros que mais odeia. Mas, por mais que tente odiá-los, agora, nesta noite, algo nela prevalece, talvez o fato de seu pai estar morto e seu ódio não lhe servir de mais nada, talvez a curiosidade sobre o que seu pai colecionava tão obsessivamente, talvez… do que adianta pensar? Então, Helena Augustino se levantará da poltrona em que estava sentada, mancará até a estante mais próxima, pegará um livro e começará a ler. O livro é Dois Dedos a Menos, de Ofélia Passos, autora nascida no mesmo ano que Helena Augustino, mas ela não saberá disso ainda. Por enquanto, vai se entretendo com a história da designer que enfrenta um divórcio muito parecido com o seu. Lhe chamará a atenção o mendigo com uma perna atrofiada que a protagonista vê da janela de seu carro, mas ela seguirá lendo. Em dois dias, terá terminado o romance. Não admitirá, ainda, que gostou, então quando pegar mais um livro para ler, será em nome da curiosidade que a fez pegar o primeiro, e nada mais. O próximo será A Seta do Tempo, de Terry Lee, e Helena Augustino gostará desse também, onde a tia obesa de Eileen Gershwin (como o jazzista, sim) possui uma perna atrofiada que pipoca ao longo de toda a trama. Depois, lerá Os Ursos, de Ferdinand Lancet, um mistério que devorará em um dia, seguido de Dançam os Corvos, de Tania Moscovitch, e assim adquirá um hábito de leitura que não a abandonará por toda a segunda metade de sua vida. Helena Augustino não se casará novamente, mas terá alguns namorados e namoradas até o dia em que morrerá, também por complicações cardíacas e também sozinha, rodeada pela mesma biblioteca que estava lá na morte de seu pai, Matheus Augustino, tantos anos atrás. Ao dar seu último suspiro, Helena Augustino não perceberá que em momento algum de sua vida buscou algum livro que não estivesse nas estantes atoladas de seu pai, e somente deles saciou sua fome de palavras e pernas. Helena Augustino passará para o outro lado com a plena convicção de que o único elemento comum a toda a Literatura, independente da época ou do país onde foi escrita, são as pernas atrofiadas de seus personagens secundários. E, talvez por conta disso, morrerá feliz.
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Caderno de Exercícios
Para ser bem sincero, assim como as pernas atrofiadas do conto, não sei dizer de onde me veio a ideia para esse conto. Um belo dia, a frase que abre a história me veio à cabeça e, colocando ela no papel, a história foi surgindo. A estrutura do conto, porém (um mise en abyme que realiza um mergulho até uma história-mãe para depois retornar à principal e mostrar sua conclusão), é uma que eu queria explorar muito antes da história aparecer e, dando um jeitinho, fui levando a história nessa direção. Assim, te proponho os seguintes exercícios, hoje:
Escreva uma história sobre uma personagem obcecada por um livro que ela não consegue encontrar. Pode ser um livro de verdade ou uma invenção sua.
Escreva uma história dentro de uma história (i.e. os personagens da primeira história contam, leem, assistem etc., à segunda história).
Pegue um livro que você ainda não leu, um que esteja na sua estante. Leia a primeira frase. Como você continuaria essa história?
Boas escritas!
Ajude o autor!
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Até a próxima,
Ivan Nery Cardoso.






